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6 de setembro de 2015

Corrupção revela sua parte maldita, por Wilson Ferreira


Lava-Jato, Operaçao Zelotes, denúncias premiadas etc. A grande faxina comandada pela judicialização da Política busca não apenas investigar a lavagem do dinheiro da corrupção – mas procura simbolicamente "lavar” e “purificar” os próprios sistemas político, financeiro e midiático: afastar das nossas consciência a “parte maldita” da corrupção. As funções econômica e simbólica da própria corrupção na reprodução da sociedade - do mercado de luxo ao dinheiro que circula no sistema financeiro global até o show midiático do combate à corrupção que cria a ilusão de participação e de transparência para sistemas que há muito tempo perderam contato com o corpo social: a Política, a Mídia e o sistema financeiro. Mas ironicamente, a corrupção teria a mais secreta função: combater a fonte de todo mal, o dinheiro, através do próprio mal.

Parece haver um consenso entre jornalistas, cientistas politicos e pesquisadores de mídia que Operação Lava Jato e toda a atual judicialização da Política são ações que buscam, principalmente, impacto midiático: imagens em horário nobre de uma Ferrari sendo apreendida na Casa da Dinda em Brasília, constantes vazamentos dos depoimentos de delação, divulgação de novas prisões sincronizadas com os horários de fechamentos das revistas informativas semanais, operações da Polícia Federal batizadas com nomes exóticos etc.




Não importa qual a posição do espectro politico (para a oposição, o espetáculo é educativo como exemplos de moralização da Política; e para a esquerda que vê em tudo espetáculo seletivo apenas para sangrar a presidenta Dilma e o PT), todos os lados partem de um mesmo pressuposto: a recriminação da corrupção.


Nunca terminamos de buscar as raízes da corrupção. Ora encaramos a corrupção através da metáfora da doença – é um cancer que insiste em se espalhar como metástase em instituições e nas próprias relações humanas. Ora é vista como o próprio espelho da natureza humana, fraca e pecadora, sempre à espera do momento oportuno para manifestar-se – afinal, o hábito faz o monge ou a ocasião faz o ladrão.

Mas pelo menos a luta anti-corrupção oferece-nos o espetáculo midiático, pedagócio e catártico. Ao espetacularizar a corrupção como câncer ou como pecado, o show midiático parece ocultar a sua “parte maldita” - antes de ser um tumor ou resultante do caráter deformado do corrupto, a corrupção faz parte do próprio funcionamento da sociedade.

Georges Bataille (1897-1962)

Como parte maldita, é tradicionalmente denegrida pela ética dominante desde Platão, como demonstra o pensador francês Georges Bataille em seu livro classico A Parte Maldita – aquela parte ligada ao excesso e o dispêndio inútil que, apesar da racionalidade e moralidade, é o próprio cerne da vida e do que significa o ser humano.

Essa “Parte Madita” é a que atribui ao fenômeno da corrupção duas funções cruciais para a reprodução social: uma econômica e outra simbólica.

Corrupção, luxo e sistema financeiro


Por exemplo, na Inglaterra comprar casas de luxo é uma prática comum de bilionários para branquear dinheiro ilícito e fugir de impostos – clique aqui.

O mercado de bens de luxo é um mercado próspero e indiferente à montanha russa da economia,  turbinado por dinheiro originado de desvios, tráfico e falcatruas contábeis.

Por exemplo, o leitor deve lembrar-se da extinta loja de luxo Daslu em São Paulo onde caixas relatam pagamentos feitos com dinheiro vivo contidos em maletas colocados sobre balcões para funcionarias fazerem a contagem das notas – notas à espera de serem lavadas, assim como o lucro da própria loja originada de notas fiscais frias.

Corrupção produz mercado e gera empregos – afinal, não é esse a finalidade moralmente boa da atividade econômica? Sim, é consumo de minorias graças à sonegação de impostos e prejuízo coletivo, mas também ironicamente criador de uma cadeia produtiva que não poder ignorada dentro da economia.


Segundo o banco de dados do próprio Banco Mundial (o Grand Corruption Cases Database Project), a corrupção movimenta cerca de 40 bilhões  por ano no sistema financeiro global. Dados até modestos, se somarmos com o dinheiro lavado por esse sistema proveniente da indústria de armas e drogas – movimentando 500 bilhões de dólares por ano.

A corrupção não está apenas nos governos, empresas estatais, autarquias ou empresas privadas:  faz parte do sistema financeiro e sustenta os grandes bancos com uma desenvoltura muito além do que imaginamos.

Novamente a ironia: corrupção, armas e drogas são lavados e transformados depois em crédito para os bancos financiarem atividades econômicas legais.

A lavagem simbólica da corrupção


Mas também a espetacularização midiática do combate à corrupção possibilita uma tipo de lavagem simbólica: a purificação da Política, do sistema financeiro e da própria mídia.

Os sistemas político, financeiro e midiático transformaram-se em entidade auto-imunes, autônomas e sem gravidade: estão longe do corpo social como sistemas que se fecharam em si mesmos, tautistas e que se auto-reproduzem. A Política arruína a representação, as mídias criam a tele-ausências das massas por meio da tele-cidadania e o sistema financeiro gera catástrofes sociais a cada crash que, no fundo, é realização de lucros dos investidores/jogadores.


Graças à ofensiva judiciária anticorrupção e os desmascaramentos diários pela TV, é como se o sistema político sofresse uma nova transfusão de sangue puro, injetando vida e dando a oportunidade do sistema sair da clausura, criando um cordão umbilical que o reate à sociedade. Nem que seja sob a forma de simulação. A ofensiva do Judiciário recria as diferenças entre Esquerda e Direita, reaviva o sistema político em uma espécie de Fla X Flu. Sistema que, fosse abandonado à própria sorte, chegaria do grau zero do imobilismo simbólico – a indiferenciação partidária e a entropia total do sistema – sobre isso clique aqui.

 Para o sistema midiático que criou uma tele-cidadania baseada na ausência, a transformação das denúncias da corrupção em escândalo moralista diário transformou  toda a ofensiva judiciária em um gigantesco reality show que dá uma ilusão de interatividade e participação para os tele-cidadãos isolados.

E para o sistema financeiro, o espetáculo moralizante dos “vazamentos” em grandes veículos de comunicação da Europa e EUA das contas bancárias de sonegadores, corruptos e traficantes do HSBC é mais uma etapa dessa “grande faxina” cujo objetivo é lavar o próprio sistema e torna-lo tão branco quanto a riqueza produzida pela corrupção que circula diariamente pelas praças financeiras de todo o mundo.


Por todos os lados está em ação, fazendo parte do próprio funcionamento da sociedade, essa “parte maldita” – o imenso esforço para que riquezas sejam alocadas de forma inútil, dispendiosa, um gigantesco potlatch pós-moderno – “potlatch”: instituição de tribos indígenas da América do Norte onde se distribuía e destruía de maneira ritual a própria riqueza.

O dinheiro e o Mal


Mas, suponhamos que nada disso que o leitor leu até aqui seja verdade. Suponhamos que todo essa ofensiva anticorrupção seja um verdadeiro movimento épico e planetário de busca de transparência e construção de um sistema econômico onde a riqueza seja distribuída de forma justa e as oportunidades sejam dadas igualitariamente para todos. E que o dinheiro seja a medida do trabalho e do mérito.

Para céticos radicais como o pensador francês Jean Baudrillard tudo isso seria uma doce ilusão. As consciências “esclarecidas” partem de um visão rousseauniana de que o dinheiro, assim como o homem, seria naturalmente bom se não tivesse sido desviado para o Mal.


Ao contrário, o dinheiro depende do mal por princípio. Seguindo o raciocínio de Bataille, o dinheiro continua sendo por todo lado a “parte imoral” que deve ser continuamente levada por meio do desperdício, do jogo, do desvio, da corrupção – ironicamente destruir o mal pelo mal, lavá-lo constantemente através da circulação para ser gastado o mais rapidamente possível.

Segundo Baudrillard, o dinheiro não é um meio, mas um médium – tem a potencia de um médium que se desenvolve segundo seus próprios fins.

Desde as sociedades mais arcaicas o vínculo social sempre esteve ameaçado pelo dinheiro. Dinheiro como mediação das trocas encobre as relações humanas por meio do fetichismo monetário – não existe mais vínculo social mas circulação monetária que é regido por si mesma e se autonomiza de todo o resto. A autonomização dos sistemas midiáticos e políticos em relação ao corpo social é o seu próprio espelho.

Portanto, a visão ideal do crédito e do bom uso social do dinheiro é ilusória e serve apenas para o reality show catártico da grande faxina que diariamente vemos nas mídias.

Para que o dinheiro se direcione na direção do bem, é sempre necessário vias sutis, caminhos excepcionais sempre frágeis. Assim como o ódio (no final, o que faz primeiro os homens se unirem) deve ser sutilmente sublimado em cultura para que haja vida social.

E Baudrillard conclui de uma forma radical que, no mínimo, da no que pensar em meio a atual frisson midiático moralizante:
“O único delinquente em toda essa história, desde que se admita que a mais alta função do dinheiro é circular e ser gasto, é o pequeno poupador. Pois enquanto os grandes vigaristas financeiros limitam-se a transgredir a lei moral ou a legalidade, o pequeno poupador atenta contra a lei imoral, a lei profunda da nossa sociedade... Poupança, retenção de fundos, detenção ilícita de bens privados que poderiam se tornar bens sociais, isto é, capital líquido: tal é realmente a corrupção. E há justiça no fato de que a justiça pune o pequeno poupador ao mesmo tempo que anistia e dá sinal verde à fraude em grande estilo” (BAUDRILLARD, Jean, “O Espelho da Corrupção” In Idem, Tela Total, Porto Alegre: Sulina, 1997, p. 118-9).

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